terça-feira, 17 de setembro de 2013

A minha vizinha

Quando conheci a minha vizinha, há onze ou doze anos, achei que estava perante uma das mulheres mais bonitas, sexy e com pinta que já tinha conhecido. Passava na rua e todos os vizinhos se curvavam a sorrir, babados e subservientes. Trazia sacos de compras e o porteiro ia a correr, solícito, disponibilizar a sua ajuda, nem que fosse só para carregar uma caixa de tampões. Quando chegava às reuniões de condomínio todos sorriam e acenavam em concordância mal a viam abrir a boca, mesmo antes de ela proferir uma única palavra. A minha vizinha era uma brasa. E simpática como ninguém. Além disso, vestia-se sempre na crista da onda, a par de todas as tendências mais arriscadas, sem medo de ousar e misturar cores e padrões. A minha vizinha era sempre uma lufada de ar fresco. E eu dava por mim a conversar com ela e a tentar decorar os pormenores de maquilhagem ou a forma como tinha conciliado os acessórios para um dia me inspirar.

Entretanto, a minha vizinha, uns dez anos mais velha que eu, casou-se. Casou e adoptou um estilo mais sóbrio. Deixou de passear tanto sozinha na rua, começou a ceder os sacos das compras ao marido e até às reuniões de condomínio começou a falhar. Deixou de ser o ícone da zona, dando lugar ao casal simpático e bem vestido da zona, ao melhor estilo casal Beckham lusitano. A minha vizinha passou então a coordenar as roupas com o marido, com evidente orgulho: ao fim-de-semana adoptavam um estilo descontraído, com ganga e calçado desportivo. No Verão, usavam ambos camisas de linho e chapéus Panamá. Quando tinham festas, vestiam-se ambos de preto. E por aí em diante. Eram um casal muito equilibrado e sempre em sintonia. Só os vizinhos e o porteiro pareciam sentir-se mais sozinhos.

Até que a minha vizinha se divorciou. E algo ali de estranho aconteceu. Comprou um cão musculado a quem deu nome masculino, de um famoso ditador, e passou a andar sempre com ele. Cortou o cabelo bem curto, rapado atrás e com franja à frente. Deixou de se maquilhar. Passou a usar roupas mais largas, num estilo mais negligé. Um dia, vi-a de costas, a entrar no elevador, segui-a e até me assustei quando se virou para mim, e vi que aquele rapazinho subnutrido era ela - estava irreconhecível! Arranjou um namorado musculado também, com ar de porteiro de discoteca. Viveram uma paixão louca. Durante uma semana. E acabaram. Depois disso, colocou velas e espanta-espíritos na varanda, que sibilam quando corre uma brisa. E agora, enquanto escrevo isto, oiço uma música ritmada, com ares de electrónica, cujo volume sobe e sobe e sobe, com uns ritmos estranhíssimos, a vir da sua casa. E quase que a imagino a dançar com o seu canídeo, de olhos fechados, braços a serpentearem no ar, espanta-espíritos a sibilarem, furiosos, na penumbra, à luz dumas velas com cheiro a lavanda. Também imagino a fumar coisas estranhas, mas posso estar só a ser má-língua. De qualquer maneira, espero que recupere. Os meus ouvidos agradecem. O meu armário agradece, pois precisa de inspiração. Os vizinhos agradecem. O porteiro agradece. E tenho a certeza que até o cão agradece. Querida vizinha, tudo vai passar. Qualquer coisa, podes tocar aqui na porta ao lado. Abre-se uma garrafa de vinho e afogam-se essas mágoas todas duma vez, se for preciso... E sem música ou espanta-espíritos!

9 comentários:

  1. Normalmente quando as relações terminam, as mulheres até ficam melhores! POr melhores entenda-se...renascem :) pode ser que ela melhore. Mas a forma como escreveste a história.. top ;)

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  2. Anónimo00:25

    Tens porteiro! Gente fina é outra loiça:-)
    Uma colega de trabalho divorciou-se e despediu-se da empresa.queria mudar de ares.passados 2 anos via-a cheia de tatuagens e piercings. Um horror! A dita senhora já tinha 50 anos.

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  3. Adoro a forma como escreves e descreves estas situações. É entusiasmante.
    Eu cá não tive muita sorte com as vizinhas. Na minha casa de estudante dos anos anteriores tinha vizinhos que me acordavam de madrugada a discutirem e a empurrarem-se, outra vizinha discutia com toda gente do prédio. A vizinha da casa "verdadeira" dos meus pais é a mesma desde que nasci e desde sempre desce escadas de soalho com saltos altos às 6 da manhã. Que venha uma vizinha nova e os espanta espíritos :)
    Resto de boa semana.
    Cacatua

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  4. Gostei bastante de ler este post. Parabéns pela qualidade da narrativa (palavra da moda).

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  5. Por momentos pensei que a vizinha tinha virado sapatona.... :P

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  6. Quando a música te incomodar muito, vai lá tu e leva a garrafa de vinho!

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  7. É algo curioso...aqui no emprego há vários casos de mulheres que se divorciaram e que mudaram, drásticamente, para melhor, o seu aspecto. Passaram a usar roupa muito mais sexy e sensual, muitas foram para o ginásio e perderam até 10 kilos (verdade) e estão umas verdadeiras bombas. Chegam a ser grupos de 5/6 divorciadas sempre com noitadas e vestidas para arrasar.

    Eu gosto. Mas é preciso divorciarem-se para isso????

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  8. A vida muda. As pessoas mudam. Tudo muda. O resto, está na força de cada um.

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

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  9. Acho que só uma garrafa de vinho não chega, já deve precisar de uma terapia mais forte. E depressa...

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